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terça-feira, 29 de maio de 2018

Gazeta Politica com Leonardo Secchi


Saramago e a greve dos caminhoneiros
Por Leonardo Secchi – Professor de Administração Pública da Udesc
No livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago descreve, de forma brilhante, como se revela o instinto humano diante do caos. É diante do caos ou do extremo que se revela caráter, ética, a essência individual. Quando você lê o livro ou vê o filme lançado depois, é impossível não se perguntar qual seria sua reação diante da situação proposta pelo autor (epidemia de cegueira que transforma a cidade em um caos). Qual verdade eu revelaria? Qual seria minha visão ou minha cegueira?
A paralisação dos caminhoneiros que gerou o efeito dominó no desabastecimento do país, assim como a cegueira proposta por Saramago, também faz suas revelações: o empresário que pune o consumidor para ganhar mais, seja no aumento do preço do combustível ou dos alimentos; revela o cidadão que quer garantir o seu sem se importar se o outro terá ou não; revela o governo que permite ao mercado ditar regras econômicas capazes de prejudicar a população e ainda a pune pela rebelião; também revela o eleitor que está mais preocupado em defender cores e bandeiras à própria nação.
Saramago faz uma crítica ao “egoísmo e à selvageria humana” e ao parafrasear o famoso ditado “mais cego é aquele que não quer ver” aponta dois caminhos para uma sociedade mais humana: a esperança, a ordem e justiça social. Não há espaço para ambas quando apenas legislamos em causa própria.
Mudança de postura
Quando falamos em mudança de postura, de renovação, estamos falando em mudarmos esse famoso “jeitinho brasileiro” e nos unirmos para melhorarmos o sistema, o país, a vida de todos.
É com esse pensamento que apoio a paralisação dos caminhoneiros. A categoria não reivindica apenas a redução do preço dos combustíveis, que de forma absurda já aumentou 20% em cinco meses. A greve parou o país porque não é só o grito dos caminhoneiros. Ela uniu todas as classes e categorias insatisfeitas com o governo que tem permitido reajustes abusivos diante de um salário mínimo intocável e a pesada carga tributária brasileira que não parece retornar em obras e serviços públicos. Todos sentem os reflexos, do patrão ao empregado, da dona de casa ao empresário.
Como otimista e entusiasta que sou, reconheço as fraquezas humanas tão bem apontadas por Saramago, mas acredito também no que a paralisação dos caminhoneiros têm apontado no país: o povo tem muita força, tem poder de união e é capaz de provocar mudanças. Isso se chama esperança.
Em tempo
A paralisação dos caminheiros também expõe a fragilidade da infraestrutura rodoviária e de logística no país, que há décadas vem sendo sentida pela população e cobrada pelo setor. Por que será que quatro dias foram suficientes para parar o país? Com ferrovias só no papel, seguimos reféns do transporte por rodovias em situações precárias que, somado ao alto preço dos combustíveis, fica fácil entender a paralisação nacional. Este é outro ponto que sempre entra e nunca sai da pauta eleitoral.
Opinião

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